quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O AMOR SEGUNDO SOPHIA, A MOSCA TELEPATA

Não pude evitar aquele aperto no peito ao digitar: quanto tempo vive uma mosca? A resposta que o Google me daria, não era uma novidade. Nem para mim, nem para ela. Nada poderia ser feito. Mais um ou dois dias e pronto. Tudo estaria acabado. Suavemente, ela pousou na ponta do meu nariz. Olhou dentro dos meus olhos e disse o que havia para ser dito - e esse foi o nosso impossível abraço de despedida.

Sei, não é certo começar uma história pelo fim. Talvez vocês queiram saber como eu me apaixonei por uma mosca. Querem? Ou talvez estejam me achando um lunático nojento. Acham? Foi numa tarde de domingo...

Eu estava deitado no sofá da sala. Lia o último livro do Marcelo Rubens Paiva, a segunda vez que te conheci, quando Sophia (naquela ocasião ela ainda não se chamava Sophia) pousou na página x, bem em cima da palavra 'amor'. Sem me incomodar, dei uma sacudida no livro para espantá-la e voltei à leitura. Em poucos segundos, a mosca voltou a pousar sobre o livro. Bem em cima da palavra 'amor'.

Minha reação? Fechar o livro do Rubens Paiva com força e esmagar a mosquinha petulante. Por sorte, ela foi mais rápida e escapou de uma morte horrorosa e prematura. Não tardou e ela voltou. Em cima da palavra 'amor'.

- Por favor, não me esmague...

A televisão estava desligada. O rádio estava desligado. De onde teria vindo aquele som?

- Sou eu. Eu preciso falar com você. Não se assuste, não me mate.

Na verdade, não era um som. Mas algo que eu só podia ouvir dentro da minha cabeça, uma mensagem enviada, por telepatia, pela mosca pousada sobre a palavra 'amor' do livro do Marcelo Rubens Paiva. ' O que a solidão não faz com a gente?', pensei.

- Venho te observando há dias. Te seguindo pela casa, pousando no seu ombro, te vendo dormir. Desculpe, tô apaixonada.

Eu, mergulhado no oceano do absurdo, me deixei levar pela mosca. Eu queria explicações. Ela dizia que o amor é inexplicável. Eu queria lógica. Ela dizia que o amor é sonho. Eu tinha os pés no chão. Ela sabia voar. Eu tinha mais de 30 anos, ela 18 dias.

Depois, conversamos. Uma conversa de homem pra mosca e de mosca pra homem. Decidimos que ela se chamaria Sophia - assim nosso diálogo ficaria mais realista. Para forçar intimidade, coloquei um disco do Raul Seixas. Ela se sentiu ofendida. Falou que 'eu sou a mosca que pousou na sua sopa era óbvio demais'. Sophia gostava mesmo era do Los Hermanos, disse que tinha aprendido comigo.

Sophia começou a me acompanhar. Assistia televisão ao meu lado. Era fã dos Simpsons e gostava de futebol (embora não torcesse especificamente por ninguém). De noite, pousava sobre o meu travesseiro. Me contava histórias do seu mundo, fofocas de mosca. Inocentes e divertidas. Ah, ela também leu comigo o livro do Rubens Paiva.

Um dia, convidei Sophia para ir ao cinema. Ela teve medo, mas aceitou (sentia-se protegida ao meu lado ou pousada no meu ombro).

Na fila do cinema, uma mulher me cutucou pelas costas:

- Tem uma mosca no seu ombro?
- Qual o problema? Vai cuidar da sua vida, sua ridícula!

Sophia riu com a minha reação. Ah, adoramos o filme Vick Cristina Barcelona, do Woody Allen. Gênio.

Em casa, jogávamos xadrez. Sophia sobrevoava o tabuleiro, pousando na peça que deveria ser mexida e no quadradinho que seria ocupado por ela. Ganhou de mim umas três ou quatro vezes.

Com o passar dos dias, nossas conversas ficaram mais filosóficas. Por que, eu seria um humano? Por que, ela era um inseto. Sophia tinha uma teoria. Dizia que na primeira encarnação, a gente nascia inseto; na segunda, vinha em forma de peixe; na terceira, era um animal selvagem; na quarta; um cachorro ou um gato; na quinta, um ser humano. "São seis reencarnações. Na última, a gente vem como pedra."

O amor é finito. Sophia morreu ontem. De morte natural, sobre a letra 'A' do meu computador. Agora, ela já deve ser um peixinho. Amanhã, serei uma pedra.

Gilberto Amendola, 33, é jornalista e escreve no Haja Saco às quintas-feiras


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Um comentário:

ci belih disse...

lindo! lindo mesmo!
:)